A hegemonia política de Simão Dias


Marcos Cardoso
Jornalista

Alberto Carvalho, reverenciado intelectual que dá nome ao Campus da Universidade Federal de Sergipe em Itabaiana, disse certa vez que o único sergipano que tem orgulho de dizer onde nasceu é o itabaianense (Vão livro, 1996). Sagaz e inquieto por natureza, comerciante nato, o itabaianense jamais esquece suas origens e faz questão de exaltar as qualidades do município serrano onde quer que esteja, lembrou o saudoso professor, escritor e boêmio.

Outro itabaianense e também professor da UFS, José Costa gosta de brincar que sua terra foi descoberta pelos fenícios, tamanho é o gosto pela cultura comercial empreendedora. Se pelo aspecto antropológico e econômico Itabaiana merece ser sempre louvado, outro município interiorano faz jus a uma melhor observação pela quantidade e qualidade dos políticos que tem revelado em pouco mais de um século de vida. E, por isso mesmo, é digno de ser enaltecido com orgulho pelos seus filhos. Trata-se de Simão Dias.

Município de pouco mais de 40 mil habitantes que leva o nome de um vaqueiro que, para fugir de uma ordem da invasão holandesa, escondeu o gado nas pastagens sob as franjas da Serra do Cabral, à margem do rio Caiçá, afluente do Piauí, Simão Dias passou de categoria de vila a cidade em junho de 1890, por decreto do presidente Felisbelo Freire.

Desde então, revelou três famílias importantes na história política sergipana — Carvalho, Valadares e Déda —, das quais, em menos de meio século, germinaram três governadores: Sebastião Celso de Carvalho (1964-1967), Antônio Carlos Valadares (1987-1990) e Marcelo Déda Chagas (2007-2013), este também tendo sido prefeito de Aracaju (2001-2006).

Mal plagiando a expressão do sociólogo francês Jean-François Sirinelli, Simão Dias é um viveiro de políticos. De lá saiu Carvalho Neto, advogado e político que viveu entre 1889 e 1954 e que foi um dos mais influentes intelectuais de Sergipe. E também Gervásio de Carvalho Prata, desembargador e chefe político do PSD, que vinha a ser tio de Celso de Carvalho.

Neto do Barão de Santa Rosa, Celso conquistou oito mandatos nas urnas, inclusive a vice-governadoria que seria o degrau condutor ao patamar máximo do Estado, em 1º de abril de 1964, quando o então governador propriaense João de Seixas Dória foi destituído e preso pelos militares.

Autor da monografia Simão Dias: a transição da oligarquia ao populismo (1940-1964), o licenciado em História pela UFS Marcelo Domingos de Souza, orientado pela professora Terezinha Alves de Oliva, considera Celso de Carvalho o último remanescente da tradição oligárquica do município.

A oligarquia teria sido quebrada pelo fenômeno populista de Pedro Almeida Valadares, do povoado Pau de Leite, que também foi prefeito e deputado estadual e criador de um novo clã político, do qual a maior expressão é o ex-quase tudo Antônio Carlos Valadares, que hoje é senador em terceiro mandato.

Filho de Caçula, que também foi prefeita, irmão de José Valadares, que foi prefeito três vezes e deputado estadual, Antônio Valadares é uma máquina de conquistar e transferir votos. Com sua capacidade eleitoral incontestável, ele fez o sobrinho Pedrinho (1965-2014) deputado federal por duas vezes. Depois, colocou no caminho, com o mesmo sucesso, o herdeiro que leva o seu nome, Antônio Carlos Valadares Filho, já no terceiro mandato de deputado federal.

Também foi ele o mentor da carreira política de Belivaldo Chagas, ex-deputado estadual que ocupa pela segunda vez o posto de vice-governador do Estado. Belivaldo agora é tratado como um nome a ser considerado na disputa pelo governo do Estado em 2018.

Com menor tradição política, mas nem por isso menos importante, a família Déda descende do advogado e intelectual José de Carvalho Déda, autor de Simão Dias – Fragmentos de sua história e do clássico do folclore Brefaias e Burundangas. Ele também foi político, prefeito de Simão Dias, deputado em duas legislaturas e constituinte estadual, feito que seria repetido pelo neto Marcelo 42 anos depois.

Ambos assinaram as duas Constituições democráticas de Sergipe.

“A primeira, elaborada em 1947, contou com a participação de meu avô Zeca. A segunda, escrita em 1989, contou com a minha presença. Teve um Déda assinando em 1947 e um Déda assinando em 1989”, contou um orgulhoso Marcelo Déda ao jornalista Osmário Santos em 2000.

Como se não bastasse ao clã dos Déda, há dois nomes importantes na carreira jurídica sergipana, um tio e um irmão de Marcelo que chegaram a desembargadores do Tribunal de Justiça de Sergipe: Artur Oscar de Oliveira Déda e Cláudio Dinart Déda Chagas, ambos já aposentados. O Déda governador contribuiu para o cunhado Edson Ulisses de Melo, natural de Porto da Folha, também chegar à desembargadoria.

O povo de Simão Dias tem do que se orgulhar. O município que, por uma questiúncula paroquial, um dia se chamou Anápolis é mesmo um viveiro de políticos — e de outros homens públicos destacados.

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