Precisamos falar sobre os youtubers mirins


A youtuber mirim Julia Silva cujo canal ultrapassa um milhão de inscritos

Luiz Gustavo Pacete
Meio e Mensagem

A discussão em torno das ações de marcas voltadas a youtubers mirins e, consequentemente, a seus seguidores, chegou até o Ministério Público Federal (MPF). Na semana passada, por meio da Procuradoria da República do Estado de São Paulo, foi instaurado um inquérito civil para investigar uma denúncia do Criança e Consumo, do Instituto Alana, sobre “possível” publicidade abusiva realizada pelo McDonald´s por meio do envio de produtos a youtubers mirins.

Dentre as providências, o MPF solicitou ao YouTube esclarecimentos sobre restrições de publicidade infantil. O YouTube afirmou, em nota, que qualquer publicidade precisa estar em conformidade e que os criadores que participam do programa de anúncios vendidos precisam seguir as políticas da plataforma. “A idade mínima para gerenciar um canal é de 13 anos. O que acontece no caso de canais infantis é que o YouTube orienta que eles sejam criados e gerenciados pelos pais ou responsáveis das crianças, que devem participar ativamente do processo e escolher a melhor forma de manter seus filhos protegidos”, diz o Youtube.

Já o McDonald´s afirma que não faz ações com youtubers mirins e que pratica, desde 2007, uma política institucional que inclui um código de ética próprio em comunicação publicitária de alimentos. De acordo com Ekaterine Karageorgiadis, advogada do Instituto Alana, a comunicação mercadológica dirigida ao público infantil, em especial aquela utilizando os youtubers mirins, aproveita-se da audiência desses canais para se comunicar com as crianças. “Além de exigir das empresas o fim dessa prática, é importante que aquelas que hospedam esses vídeos também se responsabilizem e restrinjam esse tipo de ação de marketing”, explica Ekaterine.

No início do mês, o Ministério Público Federal do Rio de Janeiro já havia recebido uma denúncia contra outras 14 empresas de setores como vestuário, material escolar, turismo e brinquedos que estariam praticando o envio de produtos a crianças, prática tradicionalmente conhecida como unboxing. Claudia Almeida, advogada do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), explica que a discussão sobre a prática de propaganda envolvendo os youtubers mirins deve ganhar cada vez mais atenção tendo em vista a capacidade de alcance que possuem os canais.“Hoje, legalmente, temos todos os elementos que regulam a publicidade dirigida às crianças e o que vale para a televisão vale para internet e qualquer outro canal”, diz Claudia Almeida, lembrando que existem canais que ultrapassam um milhão de inscritos.

Dentre as empresas denunciadas ao MPF, a BIC informou que envia kits e produtos a jornalistas, blogueiros, youtubers e clientes, mas que não tem essa atividade como rotina. “A BIC pauta todas as suas atividades de acordo com o Código de Defesa do Consumidor, o Estatuto da Criança e do Adolescente e o Conar. ”

A C&A, outra empresa denunciada, afirmou que não foi notificada e, portanto, não comentaria o assunto. A Foroni afirmou que “segue todas as leis vigentes a respeito da publicidade no Brasil. ” O parque KidZania informou que possui as mesmas preocupações do Instituto Alana e do Ministério Público em relação à proteção dos consumidores e, especialmente, das crianças. “A KidZania realizou antes mesmo de sua abertura, em dezembro de 2014, análise detalhada sobre a legalidade de veiculação de publicidade de produtos e serviços para crianças e não enviamos presentes ou qualquer produto para crianças. Atendemos de maneira reativa aos pedidos das crianças para virem à KidZania produzirem conteúdo para seus canais.

De acordo com Luciana Corrêa, do ESPM Media Lab, o ambiente digital traz muito mais desafios relacionados à publicidade voltada ao público infantil . “Neste momento, a questão não é proibir, mas existe uma responsabilidade de marcas, Ministério Público, empresas, veículos de comunicação, escolas e pais educarem os seus filhos em relação ao universo digital como um todo”, explica a pesquisadora. Luciana defende, no entanto, que o caminho da proibição pode surtir efeito contrário ao próprio objetivo estabelecido.

“Temos o exemplo da extinção de conteúdo televisivo para crianças como reflexo das restrições e da saída de muitos anunciantes, proibição também compromete o conteúdo de qualidade”, aponta. Isabella Henriques, diretora de advocacy do Instituto Alana, que completa dez anos, afirmou que dentre os desafios que pautam a organização daqui em diante está a intensificação de monitorar a publicidade infantil no ambiente digital.

Na semana passada, o YouTube anunciou a chegada ao Brasil do YouTube Kids, plataforma direcionada a crianças entre 2 e 8 anos, que seria uma forma de proporcionar um ambiente mais seguro às crianças. De acordo com a empresa, dentre as principais funções está a possibilidade de os pais personalizarem o conteúdo acessado pelos filhos por faixa etária da criança.

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